Maria Lamas (1893-1983), escritora e jornalista portuguesa ativa ao longo da maior parte do século XX, destacou-se como ativista no contexto da oposição ao Estado Novo e como pioneira do feminismo em Portugal. O seu percurso notabilizou-se pela mobilização corajosa de espaços intersticiais mais ou menos tolerados pela ditadura, como as direções da revista Modas e Bordados e do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, para promover os direitos e a emancipação das mulheres. Perseguida pela PIDE, foi presa várias vezes e passou vários anos exilada em França, conseguindo regressar a Portugal a tempo de aqui viver a Revolução de 25 de Abril de 1974.
A sua obra mais conhecida, As Mulheres do Meu País (AMDMP), resultou de um levantamento da condição das mulheres portuguesas que realizou de norte a sul do país. Combinando texto e imagens, esta obra, publicada originalmente entre 1947 e 1950, combina os registos jornalístico, etnográfico e sociológico e distingue-se principalmente pela abordagem marcadamente realista, em claro contraste com as narrativas mitificadas da propaganda do Estado Novo. A primeira frase do primeiro capítulo é reveladora: "As mulheres que labutam de sol a sol na terra portuguesa costumam definir o seu destino com esta frase concisa e trágica: «A nossa vida é muito escrava!»".
Mais de 130 anos após o nascimento da Maria Lamas, o interesse pela sua vida, obra e militância tem tido nos últimos anos um ressurgimento assinalável. Entre outros eventos e trabalhos sobre Maria Lamas ou por ela inspirados, destacam-se neste contexto a reedição em fac-símile de AMDMP pelo jornal Público (2023-24) e a longa-metragem documental Um Nome para o Que Sou, de Marta Pessoa e com Susana Moreira Marques (2022). Destaca-se igualmente a exposição As Mulheres de Maria Lamas, com curadoria de Jorge Calado, que esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian em 2024 e na qual foram expostas, em diferentes formatos, várias dezenas de fotografias realizadas por Maria Lamas para AMDMP.
Tal como o texto da obra, as fotografias realizadas por Maria Lamas para AMDMP são socialmente realistas e politicamente empenhadas. Têm como temas fundamentais as mulheres, o trabalho e a vida quotidiana. Mostram a multiplicidade das tarefas desempenhadas por mulheres no Portugal dos anos 1940 e a dureza do trabalho e das suas vidas. Ao contrário da iconografia do Estado Novo, que cristalizava os sujeitos populares representados na imagem fixa de uma tradição inventada, a fotografia de Maria Lamas é próxima e empática, dela emergindo sobretudo a dignidade destas mulheres que trabalham, num discurso visual com muitos pontos de contacto com os trabalhos de Dorothea Lange e outros grandes fotógrafos realistas do século XX.
Num país que mudou muito, mas onde as questões do trabalho e dos direitos das mulheres permanecem centrais, continua a valer muito a pena revisitar a obra escrita e visual -- para além do exemplo -- desta notável pioneira feminista.