
Novas formas de extração do trabalho humano destituído de direitos laborais e humanos compreendem um processo de transformação não apenas da natureza do trabalho, através da digitalização das sociedades e expansão do sector dos serviços, mas da própria classe trabalhadora. O cinema tem sido uma das formas mais proeminentes representar o capitalismo contemporâneo, tendo alterado a representação da classe trabalhadora, nomeadamente através do realismo social. Ken Loach é o cineasta que melhor conseguiu capturar a essência visceral e autêntica da classe trabalhadora, adotando uma abordagem marxista, e apresentando uma politica de esperança, apresentando alternativas e apelo à luta pela dignidade. Nos filmes "Sorry, we missed you" e "I, Daniel Blake", o cineasta apresenta uma abordagem socialmente engajada, dando voz aos marginalizados e oprimidos pela sociedade contemporânea, revelando o custo humano da austeridade e a forma como a digitalização e uberização do trabalho e as solidariedades são processos cada vez mais fluídos e excludentes. Coletivos de trabalhadores, escolas de cinema, Ministério Público do Trabalho e a academia, para além de bloguers no Youtube, têm elaborado curta-metragens e documentários a nivel (inter)nacional. Os países da América Latina e o Brasil têm sido dos mais profícuos nesse campo: "Así Trabajan Repartidores de Comida en la Cuarentena" (2020), "Plataformas" (2019), "Vidas entregues" (2019), "Gig - A uberização do trabalho" (2019) e "Da porta pra fora" (2021). A Europa que tem constituído um terreno fértil não apenas para estas empresas digitais e oligopólios, mas para a implementação de legislação, realizou documentários e curtas-metragens relevantes: "Au Secours, Mon Patron est un Algorithme" (2019), "Invisibles" (2020). Em Portugal, o Bloco de Esquerda, que tem desempenhado um papel crucial no apoio aos trabalhadores de plataformas digitais, produziu o documentário "Estafados". Esta partilha de experiências e testemunhos da precariedade não apenas retrata as vivências diárias de sofrimento e ultraprecariedade, incutidos pelas empresas de plataformas digitais*,* mas revela demonstrações de poder, solidariedade, e estratégias de luta. A pandemia acelerou a tendência para a plataformização do trabalho, expondo vulnerabilidades e desigualdades sociais pré-existentes, revelando a forma como os estafetas rapidamente foram endeusados, ascendendo ao estatuto de trabalhadores essenciais, sendo posteriormente descartados a nivel de regulamentação laboral e invisibilizados. Este processo acompanha uma nova metamorfose do capitalismo, a uberização do trabalho, que se tornou na última fronteira da precariedade. Estas vidas são geridas por algoritmos, numa hiper-realidade, onde se encontram permanentemente "logadas" através de um smartphone, como num jogo de vídeo, executando tarefas para alcançar o ranking que permita transitar de nível e obter o bónus de performatividade (gamificação). O risco deslogamento", assédio moral e racial, problemas de saúde física e mental, acidentes de tráfico e morte são iminentes. No entanto, existe uma tentativa de (re)organização dentro, e em paralelo, aos sindicatos através do cyberativismo, em cooperativas, associações cívicas e de trabalhadores. As questões da raça, género e etnia não impedem, mas contribuem para o desenvolvimento não apenas de uma consciência, mas de uma solidariedade de classe que reconhece a sua situação e luta conjuntamente com a comunidade.