'À Plein Temps', A tempo inteiro (2021), um filme do realizador francês Éric Gravel e 'A que horas ela volta?' (2015), longa-metragem da realizadora brasileira Anna Muylaert, têm mais em comum do que possa parecer à primeira vista.

As protagonistas são mulheres trabalhadoras para quem o trabalho é, não só, um modo de sobrevivência, mas também uma forma de proporcionarem uma vida melhor aos filhos.

Julie gravita entre o campo, nos arredores parisienses, onde reside, e a cidade de Paris, onde trabalha como camareira. Divorciada, com dois filhos, meia-idade e formação superior, procura um emprego melhor. Contudo, os horários de uma empregada de hotel não acomodam uma entrevista. A presença, pontual, naquele momento chave da fase de recrutamento e toda a logística associada_ a mudança de roupa, a maquilhagem_ e a imperatividade dos ponteiros do relógio podem, sobretudo se lhes for somada uma greve geral dos transportes, tornar aquele acontecimento impossível. O relógio não pára e os planos parecem cada vez mais impossíveis de concretizar. Julie precisa de uma solução, uma resposta pública eficiente e sem custos acrescidos, que se encaixe dentro de um salário exíguo.

Val (Regina Casé) deixa Pernambuco para ir trabalhar em São Paulo como empregada doméstica. Aspira proporcionar uma futuro melhor à filha, Jéssica, que quer fazer o exame vestibular (o exame de acesso às universidades brasileiras). Contudo, a chegada da filha, uma jovem instruída, desafiadora, inconformista, à casa dos patrões da mãe faz eclodir tensões inesperadas.

Entre os locais de trabalho destas duas mulheres, contrastantes com a sua condição precária_ o glamour do hotel de luxo de uma capital francesa e a casa de uma família classe média alta Paulista_ a vida passa a correr sem honra nem glória.

O cruzamento entre o cinema e o trabalho é inevitável. A sociedade organiza-se, também, a partir do lugar que cada pessoa ocupa, numa estrutura hierarquizada, ou seja, em função da profissão. Contrariando os mitos da meritocracia, é evidente que o género, a classe social de partida, a nacionalidade, entre outros aspetos, muitos dos quais associados a fatores de discriminação, mandam mais do que se tenta fazer crer. A sétima arte que reproduz o real, e que pode ser um lugar de combate, tem nas relações laborais um mote, um tema incontornável. Contrariamente ao cinema que reproduz a sua finalidade iniciática de propaganda, os diversos realismos que foram fazendo caminho no cinema, mesmo depois da Nouvelle Vague, interpelam-nos.

O ritmo vertiginoso do filme À plein de temps, de Éric Gravel, é alcançado pelos sucessivos planos em movimento, combinados com close ups, que nos mostram as mãos da personagem a realizar as tarefas e planos médios, que vão estreitando, dos corredores do hotel. A câmara assinala essa asfixia pela passagem do tempo. Este ritmo que podia, erroneamente, assemelhar-se às fórmulas do cinema comercial americano, aparece como uma forma de nos colocar em contacto com uma urgência, uma urgência que surge de uma condição social com a qual se quer romper. O tempo real de um trabalhador indiferenciado pode ser mais vertiginoso do que o captado, com toda a manipulação e efeitos especiais, de um qualquer filme de ação. Mas não é a arte da sugestão que marca este objeto artístico. A proposta parece ser a de expor as desigualdades sociais através dessa aceleração que entorpece. Ainda assim, não se aprofundem chagas sociais e as personagens não adquirem consciência de classe, como fariam um Ken Loach ou um Stéphane Brizé. A opção estética é outra. Uma distração poderia ver na proposta de Gravel uma alfinetada aos grevistas. Talvez seja um equívoco. Gravel põe a nu a desigualdade de um sistema que penaliza sempre os mesmos, que deixa 'os de baixo' reféns e sem alternativas. A narrativa, no caso do filme francês, concentra-se, num curto espaço temporal. Vai-se alternando entre cenas no exterior e no interior, mas em ritmo de corrida permanente.

Por contraponto, no filme de Anna Muylaert, a rotina laboral da trabalhadora doméstica segue um ritmo mais lento, com vários planos fechados, sendo os espaços exteriores, mesmo que no espaço doméstico, também marcas da desigualdade, a piscina da família onde trabalha, o percurso nos transportes públicos feito pela empregada. Só a filha de Val rompe com essa divisão de lugares, de espaços que cada pessoas pode ocupar, recusa a subserviência e humildade extrema da mãe, entra na piscina, toma o pequeno-almoço na cozinha da família, sente-se uma igual e procura esse lugar.

Sob a capa da vida normal, da rotina, a face da precariedade impõe-se. A subjugação pelos baixos salários, a domesticação pela falta de alternativas, parecem receitas que funcionam. Mas a inquietação, o sentimento de injustiça, está lá e pode-se sentir o sabor mais tarde ou mais cedo. O filme brasileiro deixa essa tensão em lume brando e vai contaminando a ação.

O desfecho do filmes pode ser interpretado de modo diverso. No caso do filme de Gravel pode ler-se o final como uma fuga para a ideia de superação alcançada pela tenacidade individual, um cocktail American Dream, de onde se sai vencedor ou fracassado e a responsabilização coletiva e social não tem lugar. Em alternativa, pode-se concluir que se está perante uma tentativa de resgatar a esperança que impera no ciclo infernal dos trabalhadores empobrecidos. Inclino-me para esta segunda perspetiva.

Em 'A que horas ela volta' o argumento também não liberta a personagem da sua condição. Todavia, a narrativa acrescenta-lhe consciência, consciência que vem a partir de uma filha que rejeita colocar-se na posição de filha da empregada, que não aceita a posição de subserviência e muito menos de menorização, que traz a contestação.

De algum modo, o desfecho, em ambos os filmes, opta por pequenas ruturas que surgem a partir da consciência do indivíduo para lá da sua posição na tal escada social. Merecem, por isso, um olhar atento dos que vivem ou viveram do seu trabalho.