Foi com a história de António Lacerda, protagonista do primeiro single (Lacerda) que estragou uma perna nas minas da guerra no Lubango, pelo que hoje dança com dores, que os Duques do Precariado nos apresentaram Antropocenas, o álbum de estreia desta banda portuguesa de rock alternativo, lançado em 2023.
Pedro Mendonça e João Fragoso são a dupla que fez nascer este projecto em Lisboa, ainda que se tenham conhecido no Talasnal muitos anos antes de se verem inquietados pela precariedade, tema que viria a ser mote para a escolha do nome da banda. Através das suas letras cheias de ironia e críticas certeiras, os Duques convidam-nos a pensar sobre várias questões sociais e políticas, incluindo os traumas de guerra, o quotidiano citadino e os desafios do mundo laboral.
Foi no fim da última década do século passado que Robert Castel cunhava a expressão "precariado" para designar o proletariado precário, uma classe emergente cuja condição de precariedade era permanente, espelhando-se numa multiplicidade de estatutos de emprego e outras formas atípicas de trabalho. Mais de uma década depois, Guy Standing, economista inglês, em "O Precariado - A Nova Classe Perigosa", debruçou-se sobre esta nova classe social marcada pela instabilidade laboral, sendo os seus sentimentos de frustração e revolta gatilhos para as mobilizações sociais que vêm ocorrendo em diversos pontos do mundo.
No precariado encontramos todas as pessoas expostas às mutações do mercado laboral, à sua desregulação, ao surgimento de novas formas de reconfigurar vínculos por forma a (tentar) afastar deles o Código do Trabalho, empurrando todos aqueles trabalhadores para a desprotecção social e o trabalho não declarado. Quanto mais distantes das formas clássicas de trabalho, mais distantes estão das formas clássicas de representação e organização -- tal como as associações sindicais.
A própria escolha do nome do projecto musical leva-nos à reflexão sobre "níveis" de debilidade: dentro da instabilidade laboral, da injustiça e da desigualdade, há várias "precariedades" distintas, sendo que algumas poderão ser encaradas como realeza se atendermos ao poço sem fundo que é esta nova classe social. O precariado estender-se-á desde a classe operária afectada pela subcontratação da mão-de-obra e o motorista que entrega comida por um par de euros sob as mais adversas condições climatéricas, passando pelo falso voluntariado, chegando aos trabalhadores altamente qualificados que se vêm saltitar entre bolsas de investigação e contratos precários. Seja qual for a forma que toma, a realidade destes trabalhadores faz-se de instabilidade profissional (e pessoal, por extensão), baixos salários, horários de trabalho instáveis e longos, pouca (ou nenhuma) progressão.
Em Antropocenas encontramos um verdadeiro hino para o precariado. Em "Vou Considerar" cantam-se as agruras de quem, mergulhado numa pobre realidade laboral, procura resistir à venda de todos os seus pedaços de dignidade ("Bulo até ao osso / Mas não vergo nem agacho / Ao magnata que apertar / eu falo grosso"), consciente de que quando a precariedade reina, alguém se sujeitará a muito para ganhar pouco ("Se eu largar a pá / chega o outro e toma o meu lugar"). Canta-se o trabalhador que faz o necessário para aligeirar a sua vivência laboral ("Eu sei que hei-de aprender a ser alegre aqui em baixo / Já nem falo grosso / E para encher o próprio tacho eu só não sei achar o oposto do que eu acho") por forma a obter o seu salário e pagar (algumas) contas ("Mas se prometes pagar / Eu bem preciso / Vou considerar (...) Só continuo porque prometem pagar").
Em palco, os Duques do Precariado ora são dois, ora são cinco, ora são qualquer coisa no intermédio; porém, sejam quantos forem, vê-los e ouvi-los tocar é assistir a uma riqueza (no caso, sonora e lírica) que sonhamos ver estender-se ao mundo laboral.
Vou considerar
Bulo até ao osso
Mas não vergo nem agacho
Ao magnata que apertar
eu falo grosso
Nó que não desata
não o laço à toa no pescoço
E nem ao lanche afio a faca
a canibais
Mas se prometes pagar
Eu bem preciso
Vou considerar
Medo da penúria
Ai da fome eu morro de cagaço
A vida é dura
mas o pão sou eu que amasso
Querem gente nova para cavar nas catacumbas
faço covas tão fundas que hei-de dar com um riacho
se prometes pagar
Eu bem preciso
Vou m'arregaçar
Já tenho um emprego
Eu cavo, eu sacho
A cova estreita que um dia há-de ser minha
Se eu largar a pá
chega o outro e toma o meu lugar
Eu vivo roto, roto, roto a esvaziar
Covas do tamanho justo para em enterrar
Só continuo porque prometem pagar
se prometes pagar
Eu bem preciso
Vou continuar
Faço o mais que posso
Eu até vergo, até agacho
Eu sei que hei-de aprender a ser alegre aqui em baixo
Já nem falo grosso
E para encher o próprio tacho eu só não sei achar o oposto do que eu acho
se prometes pagar
Vou considerar