Estas conversas animadas por Américo Nunes são fonte documental rara e de grande importância e contribuem para o conhecimento e interpretação, nomeadamente do movimento sindical, da sua ação no 25 de Abril e evolução posterior. Dá-nos também elementos sobre a vida e resistência anterior ao dia libertador, como sobre factos, contactos, detalhes posteriores. Relata algumas histórias deliciosas e inspiradoras.

Tem a vantagem de serem animadas por um ator participante em muito do que vai desfilando nos conteúdos (diversos de ator para ator) e tem uma característica (posso talvez dizer, limitação) que, não o diminuindo, centra este livro na participação e domínio comunista na central sindical. De todos os conversantes, apenas Kalidás Barreto, não é do PCP, considerando que Manuel Lopes (também não filiado) é duplamente considerado como quem "acabava sempre por estar do lado certo" -- obviamente o dos comunistas. Temos pois a visão de atores sindicais, opiniões, factos e a versão do PCP.

Questões como a dos dias até ao 1º de Maio 74, ou as lutas e motivações posteriores, a questão da unicidade, a ação antidivisionista, o Congresso de Todos os Sindicatos, a Carta Aberta e a criação da UGT, a ação reivindicativa e estratégia defensiva, são temas que amiúde surgem nas conversas. Mas também a opção política de dividir o movimento sindical, o investimento estrangeiro feito nisso, bem como o relacionamento internacional, a preferência pela FSM e participação nas suas atividades, a filiação na CES e as posições da Internacional Socialista, encontram relatos (nesta matéria vale a pena ler as conversas com Carlos Carvalho ou Álvaro Rana e, mesmo, José Luís Judas). Imensos casos de lutas e empresas, o difícil controlo dos radicalismo e excessos, a resistência à reestruturação sindical (AN chega a afirmar que "um dos grandes travões da reestruturação vem do Partido"), são até lições a reter.

Uma conversa que sobressai, pela originalidade das expressões divergentes, é a de Canais Rocha. O homem que escolhido pelos pares para ser o SG da Intersindical e que punido, não o chegou a ser porque, acedendo aos arquivos da PIDE, o PCP apurou que falou na prisão. Questionado sobre o ser comunista e sindicalista e quais os limites da autonomia relativamente ao Partido, o que pode ser contraditório, confirma e diz que "os interesses estratégicos do Partido nem sempre coincidem com o interesse dos trabalhadores" e acrescenta que "a prática social é o critério da verdade", havendo "uma orientação geral aprovada nos congressos, que é a defesa intransigente dos interesses dos trabalhadores".

A propósito também António Quintas se pronuncia, numa curiosa abordagem: "eu tenho um Partido que não me dá ordens". Mas "tens obrigação de seguir, na prática a política orientadora do Partido"(AN) ..."eu sigo voluntariamente e obrigatoriamente a ordem que eu próprio ajudo a construir".

A questão da autonomia, da orientação do Partido para os seus membros e até a interpretação do fatos passados trazem uma estranha e deselegante característica a este livro. O prefácio da Domingos Abrantes são umas 8 páginas a clarificar e, obsessivamente, a contestar o que Canais Rocha foi dizendo, como que a compilar e repor a verdade oficial do PCP.

Uma última referência ao caráter unitário da Intersindical. É notada a importância dos católicos na construção da central (maior que a dos socialistas, que também a integravam). José Luís Judas diz que "o papel dos católicos foi muito importante" e "a Igreja esteve sempre contra a criação da UGT".

Será talvez premonitório que Álvaro Rana afirme (há mais de 20 anos) "em relação ao movimento sindical unitário", "estamos a perder qualidades, é evidente".

Vale a pena ler, com sentido crítico: lições do passado, alerta presente, a olhar o futuro.