No final de 2023, o IRES dedicou uma edição especial da sua revista Crónica Internacional ao estudo das posições do movimento sindical face à crise climática e ambiental. Esta edição oferece uma visão abrangente sobre as estratégias sindicais, detalhando-as em vários países e continentes, proporcionando uma análise comparativa sobre as respostas que os sindicatos têm dado às crescentes preocupações ambientais.

A análise da diversidade das estratégias sindicais ficou a cargo de Coutrot & Nizzoli 1. Os autores assumem que as questões ambientais não têm o mesmo peso que as reivindicações tradicionais do movimento sindical, como o salário, o emprego, os tempos ou as condições de trabalho. No entanto, embora não estejam no centro da agenda sindical, estas questões nunca foram completamente alheias às preocupações dos sindicatos, especialmente quando se consideram os problemas do ambiente de trabalho. Para os sindicatos "natureza" foi sendo, na melhor das hipóteses, o "ambiente" onde acontece o trabalho, ou seja, um elemento passivo e não uma realidade com uma relação dialética com o trabalho, a sociedade, e o consumo. Aliás, vista desta forma, a "natureza" é passiva e externa à experiência humana, não sendo influenciada pelas atividades humanas e sendo imutável. Latour 2 já tinha discutido que o sistema Terra não pode ser compreendido como externo à existência humana, propondo antes um entendimento segundo a abordagem Gaia, isto é, como um sistema complexo de interações não determinísticas ou planeadas, mas onde o impacto da espécie humana se faz sentir e cujo efeito será sentido.

Os autores afirmam que, apesar de algumas iniciativas para defender o ambiente nas fábricas e nos territórios, durante o século XX, os trabalhadores e os seus representantes mantiveram uma postura desinteressada ou até mesmo contrária ao ambientalismo. Da mesma forma, os movimentos ecologistas raramente consideraram o impacto das medidas ambientais nos trabalhadores. Esta indiferença, ou até hostilidade mútua, começou a mudar com o exemplo de Tony Mazzocchi, sindicalista americano que arriscou alianças entre o movimento dos trabalhadores e associações ambientais criando o conceito de Transição Justa, posteriormente adotado até no Acordo de Paris 3.

Coutrot & Nizzoli propõem uma tipologia útil para identificar as estratégias sindicais: i) Negacionismo -- em que os sindicatos ignoram os problemas ambientais e se opõem às políticas ecológicas; ii) Travagem -- quando os sindicatos reconhecem a necessidade de agir, mas procuram atrasar a implementação das políticas públicas; iii) Economia Verde -- em que os sindicatos tentam acelerar a transição energética sem questionar a necessidade de "crescimento" capitalista; e iv) Pós-Crescimento -- que envolve uma crítica ao crescimento capitalista, ao produtivismo e ao extrativismo, propondo um modo de produção centrado na justiça ambiental. Estas categorias não são estanques e os sindicatos podem abraçar estratégias conflituantes em simultâneo, dependendo de fatores como o nível da ação sindical (local, nacional ou internacional), o setor de atividade (mais ou menos impactado pela transição energética), a ideologia (corporativa, de classe, ou societal) e a conjuntura económica (em tempos de recessão, as questões ambientais tendem a ser secundarizadas face às reivindicações laborais).4

Fabris & Pochet5 exploram a situação na União Europeia, identificando que o movimento sindical europeu construiu uma agenda ambiental no início do século XXI, que foi secundarizada durante a crise financeira, sendo reativada a partir de 2015 com o conceito de transição justa, em resposta ao Green Deal europeu. Kahmann6 mostra que na Alemanha, o movimento sindical só começou a abraçar as questões ambientais no final da década de 2010, numa tentativa de influenciar as mudanças, situação semelhante à descrita na Bélgica, onde, contudo, a estratégia envolve um paradoxo ao desafiar o dilema «empregos versus clima» e ao opor-se à regulação ambiental7. Na Suécia as políticas climáticas têm um grande apoio dos sindicatos8, uma posição que contrasta com a da Argentina, onde o modelo extrativista-exportador atira o ambiente para segundo plano9. O peso dos setores industriais poluentes também se faz sentir no Canada, muito embora os sindicatos tenham sido capazes de criar laços com as organizações ambientalistas10. O mesmo acontece na Austrália, onde a redução das emissões domésticas contrasta com a exportação de combustíveis fósseis, criando divergências entre diferentes setores do trabalho. Já nos EUA a situação é mais clara, com o movimento sindical a aliar-se aos empregadores para bloquear a transição energética11.

Esta publicação oferece, assim, uma visão aprofundada sobre realidades diversas e estratégias sindicais que são muitas vezes antagónicas face à crise ambiental. É de notar a referência de vários dos autores à Teoria da Engrenagem da Produção, uma matriz de análise crítica da relação entre crescimento económico, degradação ambiental e desigualdade social12. O capitalismo estrutura-se em torno do crescimento constante, levando a maiores níveis de produção e mais exploração dos recursos naturais e produção de poluição, mas também levando a um aumento das desigualdades, visto que a riqueza produzida não é distribuída de forma equitativa. A questão é que a Engrenagem da Produção subjuga as forças sociais (capital, trabalho e Estado), fazendo com que mesmo o trabalho seja forçado a defender o aumento da produção capitalista a fim de melhorar as suas condições. A mensagem, no entanto, é de esperança, visto que os interesses dos trabalhadores e ecologistas não são afinal antagónicos, mas sim confluentes para a superação do modo de produção capitalista.

Notas

  1. Coutrot, T., & Nizzoli, C. (2023). Du déni à la justice environnementale : diversité des stratégies syndicales. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 3--21. https://doi.org/10.3917/chii.184.0003

  2. Latour, B. (2017). Facing Gaia: Eight Lectures on the New Climatic Regime (1st ed.). Polity Press.

  3. Leopold, L. (2007). The Man Who Hated Work and Loved Labor - The Life and Times of Tony Mazzocchi. Chelsea Green Publishing.

  4. Coutrot, T., & Nizzoli, C. (2023). Du déni à la justice environnementale : diversité des stratégies syndicales. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 3--21. https://doi.org/10.3917/chii.184.0003

  5. Fabris, B. L., & Pochet, P. (2023). Europe. La Confédération européenne des syndicats et la transition juste. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 23--42. https://doi.org/10.3917/chii.184.0023

  6. Kahmann, M. (2023). Allemagne. Les syndicats, co-acteurs de la transition écologique. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 43--65. https://doi.org/10.3917/chii.184.0043

  7. Sepulchre, D. (2023). Belgique. Des syndicats partagés entre défense de l'environnement et de l'emploi. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 67--84. https://doi.org/10.3917/chii.184.0067

  8. Jolivet, A. (2023). Suède. Un large soutien syndical à la politique climatique, bien moindre à la politique environnementale. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 85--106. https://doi.org/10.3917/chii.184.0085

  9. Trenta, A. (2023). Argentine. Le développement productif contre l'environnement ? Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 107--122. https://doi.org/10.3917/chii.184.0107

  10. Magnan, A. (2023). Canada. Partenariats, emplois durables et neutralité carbone : les syndicats et la transition juste. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 137--159. https://doi.org/10.3917/chii.184.0137

  11. Sauviat, C. (2023). États-Unis. Des syndicats focalisés sur la défense de l'emploi et divisés face à la transition énergétique. Chronique Internationale de l'IRES, N° 184(4), 161--186. https://doi.org/10.3917/chii.184.0161

  12. Gould, K. A., Pellow, D. N., & Schnaiberg, A. (2016). The Treadmill of Production. Routledge; e Schnaiberg, A. (1980). The Environment: From Surplus to Scarcity. Oxford University Press.