À medida que o movimento social por ação climática foi ganhando força nas sociedades capitalistas avançadas, sobretudo a partir de 2010, começou a causar uma fricção que resultava de uma contradição óbvia: as reivindicações do movimento climático, ainda pouco aprofundadas e em mudança constante devido a nova informação científica, eram em parte incompatíveis com os movimentos sindicais.
As incompatibilidades tinham origem na necessidade objetiva de fechar infraestruturas fósseis, o que levaria certamente ao despedimento de milhares de trabalhadores por todo o mundo. Mas as fricções intensificaram-se também com certas correntes dentro do movimento climático, que defendem um 'decrescimento' das sociedades capitalistas avançadas, isto é, uma espécie de retrocesso desenvolvimentista que colocaria em cheque largos milhares de emprego, não só na indústria fóssil mas em toda a sociedade.
Mas essa contradição possibilitou também que sindicalistas se juntassem a ecologistas e ambientalistas para resolver os problemas que criava. Assim nasceu a reivindicação de uma 'transição justa', definida pela Confederação Sindical Internacional (ITUC) como uma transição ecológica que "respeita as contribuições dos trabalhadores da indústria fóssil" e lhes garante novos empregos e investimento em empregos na mitigação e adaptação às alterações climáticas.
É nessa tradição que a campanha Empregos pelo Clima surge, em 2016, em Portugal. Articulada numa rede internacional de outras associações, a campanha recolhe o apoio de organizações ambientalistas mas também da CGTP, do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte, do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social, do Sindicato dos Trabalhadores de Call Center e do Sindicato das Industrias, Energias, Serviços e Águas de Portugal.
Com função propositiva, a campanha repensa o futuro da política económica, laboral e climática de Portugal. No seu primeiro relatório, lançado em 2016, a campanha propunha a criação de cerca de 200 mil postos de trabalho como forma de alavancar com rapidez uma transição justa ao mesmo tempo que resolvia a crise da precariedade e do desemprego de um país ainda a recuperar do massacre da Troika. Era precisamente sob o lema "duas crises, uma solução", que se pensava um enorme programa de investimento público para reduzir emissões nos setores da indústria fóssil, mas criando empregos nos setores das energias renováveis, transportes, construção, indústria, agricultura, resíduos, floresta e educação.
Para além de prever mecanismos de financiamento para este projeto, desde a proibição das offshores, financiamento europeu, ou quantitative easing,1 o relatório da campanha empenhou-se em definir 'empregos para o clima': empregos que cortam emissões de gases com efeito de estufa, criados de raíz para esse fim, que sirvam para que quem sai das infraestruturas fósseis tenha emprego, com uma lógica de serviço público e com condições dignas.
Para esse fim, a campanha prevê a necessidade de envolver a sociedade civil, os sindicatos e as associações laborais na construção de programas de transição. Foi nesse contexto que se organizou a publicação de um segundo relatório, com o tema "Por uma transição justa em Sines". Identificando Sines como o ponto nevrálgico de uma transição justa em Portugal, o relatório compara as políticas energéticas lideradas pelas empresas com uma alternativa liderada pelos trabalhadores, usando como pedra-de-toque o encerramento da central termoelétrica de Sines, que deixou os trabalhadores entregues à sua sorte.
Nesse segundo relatório, a palavra de ordem é 'democracia': democracia no trabalho, democracia energética e democracia na sociedade. Como é que se constroem processos coletivos, que não sejam só imposição do Estado nem vontade das empresas, mas que tenham os sindicatos e os trabalhadores como agente de decisões. Partindo de vários exemplos, desde os painéis solares no Alentejo Litoral, à Petrogal ou à expansão dos transportes públicos, o segundo relatório rejeita a lógica através da qual têm sido levados a cabo.
Em 2023, a campanha lançou um terceiro relatório, desta vez propondo a criação de um serviço público de energias renováveis -- uma proposta que o Partido Trabalhista britânico tem usado como bandeira. Em vez de se focar na criação de novos empregos ou na transição concreta de postos de trabalhos na indústria fóssil, o último relatório foca-se na capacidade que o Estado tem para repensar os modelos de energia e pôr fim ao reino dos combustíveis fósseis.
Embora não tenha o emprego no centro, o relatório segue a lógica da transição justa: criar empregos públicos, com vínculos laborais estáveis e boas carreiras salariais, para garantir uma transição energética para as energias renováveis que não seja refém dos interesses do mercado.
O trabalho que a campanha Empregos para o Clima tem feito, que inclui agora a criação de um grupo de trabalho sobre o investimento nos transportes públicos, para melhorar condições para trabalhadores e utilizadores e reduzir emissões, baseia-se sempre na articulação dessas duas tensões na sociedade. A luta dos trabalhadores e a luta por uma transição climática, ecológica e energética. O resultado é uma proposta: um futuro melhor para todos.